O reverendo Jesse Jackson, uma das figuras mais influentes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, morreu aos 84 anos nesta terça-feira (17), segundo confirmou sua família em comunicado. Jackson faleceu após lutar nos últimos anos contra a paralisia supranuclear progressiva (PSP), uma doença neurodegenerativa rara. Em 2017, o ativista havia revelado publicamente que sofria da doença de Parkinson.
“Nosso pai era um líder servidor – não apenas para nossa família, mas para os oprimidos, os sem voz e os marginalizados em todo o mundo”, declarou a família Jackson. A nota acrescenta que “sua crença inabalável na justiça, na igualdade e no amor inspirou milhões de pessoas”.
Trajetória ao lado de Martin Luther King
Nascido em 8 de outubro de 1941 em Greenville, Carolina do Sul, Jesse Jackson cresceu no sul segregado dos Estados Unidos, em plena era do apartheid americano. Ele ganhou projeção nacional na década de 1960 como dirigente na organização Southern Christian Leadership Conference, liderada por Martin Luther King Jr..
Em 1965, Jackson participou da histórica marcha pelos direitos de voto que King liderou de Selma a Montgomery, no Alabama. King o enviou posteriormente para Chicago para lançar a Operation Breadbasket, uma iniciativa destinada a pressionar empresas a contratarem trabalhadores negros.
Jackson estava ao lado de King no Lorraine Motel em Memphis, Tennessee, em 4 de abril de 1968, quando o líder dos direitos civis foi assassinado. Segundo seu próprio relato, King morreu em seus braços. “Estávamos no meio de uma conversa a caminho do jantar. Ele tinha 39 anos de idade, era odiado por nosso governo, atacado por nosso governo, pela mídia, baleado, morto a sangue frio”, recordou Jackson em entrevista anos depois.
Candidaturas presidenciais históricas
Jesse Jackson tornou-se o segundo afro-americano (após Shirley Chisholm) a montar uma campanha nacional para presidente dos Estados Unidos quando concorreu à indicação presidencial democrata em 1984. Surpreendendo analistas políticos, Jackson conquistou o terceiro lugar geral, com 3,2 milhões de votos (18,2% do total), vencendo cinco primárias e caucuses, incluindo Louisiana, Distrito de Columbia, Carolina do Sul e Virgínia.
Em 1988, Jackson obteve desempenho ainda mais expressivo, mais que dobrando seus votos da campanha anterior. Ele recebeu 6,9 milhões de votos e venceu 11 disputas, incluindo sete primárias, conquistando 29,7% dos votos e ficando em segundo lugar, atrás de Michael Dukakis. Durante a convenção democrata daquele ano, o religioso exortou os americanos a se unirem em uma “base comum”, atacando as políticas econômicas liberais do republicano Ronald Reagan e denunciando as desigualdades no sistema de saúde.
Legado e ativismo contínuo
Após suas candidaturas presidenciais, Jackson fundou duas organizações de justiça social: a Operation PUSH (People United to Save Humanity) em 1971 e, posteriormente, a National Rainbow Coalition. Essas organizações defenderam, nos Estados Unidos e no estrangeiro, os pobres e sub-representados em áreas que iam desde direitos de voto e oportunidades de emprego até educação e saúde.
Em 1990, Jackson foi eleito “senador sombra” do Distrito de Columbia, cargo criado para pressionar o Congresso a conceder status de estado à capital. Entre 1992 e 2000, apresentou o programa “Both Sides with Jesse Jackson” na CNN. Em 1997, o presidente Bill Clinton o nomeou enviado especial para a África, onde promoveu direitos humanos e democracia.
Mesmo com problemas de saúde nos últimos anos, Jackson continuou ativo no movimento Black Lives Matter. Durante os protestos após a morte de George Floyd, ele alertou sobre os riscos do envio de militares às ruas: “Teremos de ir para a prisão, vamos resistir. A nossa democracia não pode ceder a um Estado policial”.
Jesse Jackson foi amplamente considerado um dos ativistas afro-americanos mais influentes de sua época, sendo uma ponte crucial entre o movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King Jr. e a presidência de Barack Obama. “Incansável artesão da mudança, ele deu voz aos que não tinham voz, deixando uma marca indelével na história”, afirmou o comunicado da família.
