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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Agora é pra valer, o professor está abaixo do mínimo no RJ

Quando ensinar vira sobrevivência: o salário do professor no Rio de Janeiro como síntese de um projeto de abandono da educação pública

Valter Mattos da Costa

Em plenas férias escolares, os professores do ensino básico e público do Estado do Rio de Janeiro, ao se depararem com o novo salário-mínimo nacional, R$ 1.621,00, estipulado pelo Governo Federal e em vigor desde 1º de janeiro deste ano, verificaram, agora oficialmente, que com seus R$ 1.588,41, ganham menos que um salário-mínimo.

Não se trata de retórica inflamada, nem de figura de linguagem. Trata-se de um dado objetivo, verificável, matemático. O vencimento-base de um professor da rede estadual fluminense está abaixo do mínimo legal para a sobrevivência do trabalhador brasileiro.

O fato novo não veio do Palácio Guanabara. Veio de Brasília. Foi o reajuste do salário-mínimo nacional que escancarou, sem maquiagem possível, o rebaixamento salarial imposto aos docentes do Rio de Janeiro ao longo de anos.

O governo estadual, por enquanto, nada fez. Nada corrigiu. Nada recompôs. Apenas manteve congelada uma estrutura salarial corroída pela inflação, pelo custo de vida e pela deliberada política de desvalorização da carreira docente.

Convém insistir: não foi um acidente administrativo. Não foi erro de cálculo. Não foi um lapso técnico. Foi uma escolha política reiterada, sustentada por sucessivos governos estaduais, aprofundada pelo atual.

Quando um professor passa a ganhar menos que um salário-mínimo, algo muito mais grave está sendo dito. Diz-se que ensinar vale menos que sobreviver. Diz-se que a educação pública é descartável.

O governo Cláudio Castro precisa ser citado nominalmente, porque governos não são abstrações. Governos têm rosto, projeto, orientação ideológica e prioridades muito bem definidas. E a prioridade do atual governo do Estado do Rio de Janeiro – como os demais – jamais foi a educação pública. Basta observar a ausência de política de valorização docente, de carreira estruturada e de respeito ao piso nacional.

O piso do magistério, vale lembrar, não é teto. É referência mínima. Ainda assim, o Estado insiste em cumpri-lo apenas de maneira formal, por meio de abonos, penduricalhos e artifícios contábeis.

Esses mecanismos não integram o vencimento-base, não repercutem na carreira, não incidem na aposentadoria. Servem apenas para simular cumprimento legal, enquanto esvaziam o sentido da valorização profissional.

O resultado é perverso: uma carreira achatada, sem atratividade, sem perspectiva e sem dignidade. Um convite permanente à evasão docente, ao adoecimento e ao abandono da sala de aula (um apagão da profissão docente aproxima-se).

Nenhuma sociedade que se pretenda minimamente civilizada pode tratar seus professores dessa maneira. Quando o professor é empurrado para a pobreza, a escola inteira adoece junto.

A retórica oficial costuma dizer que educação é prioridade. Mas prioridade que não se traduz em orçamento, salário e carreira é apenas propaganda vazia, típica de governos que governam por slogans.

No Rio de Janeiro, a contradição é gritante. Enquanto professores lutam para fechar o mês, o Estado mantém isenções, renegocia dívidas seletivamente e protege interesses que jamais passam pela escola pública.

O salário do professor não é um detalhe administrativo. Ele expressa o lugar simbólico que a educação ocupa no projeto de Estado. Hoje, esse lugar é marginal – e o sentido do que é a Educação pública está em disputa: que Educação queremos pagando tão mal aos seus professores?

Ganhar menos que um salário-mínimo não é apenas um problema financeiro. É uma violência simbólica. É o recado de que o trabalho intelectual, pedagógico e formativo não merece reconhecimento.

Esse quadro não afeta apenas os professores. Afeta estudantes, famílias, comunidades inteiras. Afeta a qualidade do ensino, a permanência dos profissionais e o futuro do próprio estado.

Sem professor valorizado, não há escola pública forte. Sem escola pública forte, não há desenvolvimento, não há cidadania, não há democracia que se sustente. A tentativa de naturalizar essa situação revela um projeto de sociedade profundamente desigual, em que educação pública de qualidade não é direito, mas privilégio de poucos.

Por isso, é fundamental recolocar essa pauta no centro do debate público. Não como favor corporativo, mas como questão estrutural, social e política. A luta por recomposição salarial, carreira e piso real é uma luta pela própria existência da escola pública. Não se trata de aumento, mas de recomposição mínima do que nos foi retirado ao longo do tempo.

É preciso exigir audiência pública, transparência orçamentária e compromisso político real. Não apenas a categoria docente, mas a sociedade civil organizada, seus representantes, entidades, movimentos e instituições precisam lutar, exigir e propor ações concretas.

O Legislativo estadual não pode continuar fingindo que não vê, nem a sociedade aceitar que o futuro da educação seja tratado como assunto corporativo ou secundário. Valorização não é discurso emocionado em data comemorativa. Valorização é salário digno, carreira estruturada e respeito institucional cotidiano.

Enquanto o professor for tratado como custo e não como investimento, o Rio de Janeiro – e o país – continuará aprofundando seu próprio atraso social. O salário-mínimo subiu. O salário do professor ficou. Esse contraste não é casual. É pedagógico. Ensina, cruelmente, qual é o valor atribuído a quem educa.

Em 2026, essa realidade precisa ser enfrentada sem eufemismos. Professor não pode ganhar menos que o mínimo. Isso não é ideologia. É decência. Se o governo estadual insiste em ignorar esse limite civilizatório, caberá à sociedade cobrar. Porque precarizar o professor é precarizar o futuro. E um estado que despreza seus professores está, no fundo, desistindo de si mesmo.

Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

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