Show do Bilhão: Prefeituras torram R$ 1 bi em espetáculos populares no interior do Brasil - .

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Show do Bilhão: Prefeituras torram R$ 1 bi em espetáculos populares no interior do Brasil

Somente entre 2024 e 2025, prefeituras de todo o País gastaram quase R$ 1,1 bilhão com a contratação de cantores e bandas

Fábio Pannunzio

A chegada das festas de fim de ano faz a alegria do público e das bandas que as prefeituras contratam para animar shows populares pelo interior do País. Enquanto a população se diverte, o dinheiro público escorre pelo ralo da gastança desbragada.

Somente entre 2024 e 2025, prefeituras de todo o País gastaram quase R$ 1,1 bilhão com a contratação de cantores e bandas populares. Quem paga os shows são os próprios munícipes. E, muitas vezes, há estranhos critérios orientando essas contratações.

Foi o episódio envolvendo o cantor Zezé Di Camargo e o SBT que chamou a atenção para o problema. Três semanas atrás, o sertanejo pediu que a emissora do grupo Silvio Santos deixasse de exibir um especial de Natal porque havia convidados políticos de esquerda (e também de direita) para a inauguração de seu canal de notícias, o SBT News.

Logo se descobriu que os artistas — especialmente os bolsonaristas, que têm como mantra as críticas à Lei Rouanet de Incentivo à Cultura — são os destinatários dessa avalanche de dinheiro público.

Aproveitando o ‘gancho’, analisei 10 mil contratos entre grupos musicais e diversos órgãos governamentais realizados em 2024 e 2025 para entender como funciona o showbiz mantido pelo Estado. Os dados são públicos e podem ser compulsados no Portal Nacional de Contratações Públicas.

Os registros que vão se acumulando no Portal Brasileiro de Compras Públicas mostram que há disparidades enormes entre valores cobrados de diferentes prefeituras para o mesmo fim. Grupos musicais, contratados quase que exclusivamente por dispensa de licitação, cobram o que querem, dependendo da cara do freguês.

O cantor Léo Santana, por exemplo, firmou contrato de R$ 1,5 milhão com a Prefeitura para se apresentar no carnaval do ano que vem em Aracati, no Ceará, onde fica a lendária praia de Canoa Quebrada.

Dois outros municípios, no entanto, contrataram o mesmo artista por uma fração desse valor. Em Ubaíra, na Bahia, o cachê foi de R$ 600 mil, aproximadamente um terço do que foi cobrado ao balneário cearense. Melhor ainda se deram os munícipes de Rio Largo, em Alagoas, para os quais o show de Léo Santana saiu por “apenas” R$ 300 mil – um quinto do valor pago no Ceará.

Patamares assim tão diferentes acendem a luz vermelha do Ministério Público, pois costumam indicar a prática de corrupção e lavagem de dinheiro. Os representantes das bandas e das prefeituras alegam quase sempre que diferentes datas suscitam diferentes cachês. Isso justificaria o fato de o carnaval ser muito mais caro do que as demais datas. Mas não justifica a disparidade abissal entre o que Léo Santana cobrou pelo carnaval no litoral cearense e na capital do Maranhão, São Luís, onde o show carnavalesco do mesmo artista saiu por menos da metade do preço – R$ 650 mil.

No Portal Nacional de Contratações há registros de 31 contratos para shows em todo o País ao longo de 2024 e 2025. Só com isso, o grupo faturou R$ 15,9 milhões.

Safadão

A máquina de fechar contratos do cantor Wesley Safadão é a mais azeitada entre todos os grupos que vivem das verbas das prefeituras. Entre 2024 e 2025, o cantor fechou ao menos 52 contratos com prefeituras – um show a cada duas semanas. O valor do cachê de Wesley variou entre R$ 700 mil e R$ 1,5 milhão, o que demonstra que ele pode até ser Safadão, mas de bobo não tem nada. Safadão faturou R$ 50,2 milhões, dinheiro suficiente para construir 384 casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida. Ou pagar os benefícios de 6 mil famílias inscritas no programa Bolsa Família durante um ano inteiro (são 72 mil benefícios mensais).

Ao longo do último ano, Safadão praticamente dobrou o valor de seu cachê. Em 2024, a Prefeitura de Alagoa Nova, na Paraíba, pagou R$ 700 mil por um show do cantor, que se apresentou na cidade no dia 26 de abril.

Em julho do mesmo ano, a Prefeitura de Curvelo, MG, pagou R$ 750 mil por um show. A cidade de Horizonte, no Ceará, e Vitória do Xingu, no Pará, pagaram R$ 800 mil.

Se o cachê cobrado por Safadão se mantivesse nesse patamar, a Prefeitura de Pedro Alexandre, na Bahia, poderia ter contratado dois, e não apenas uma apresentação do cantor pelo valor contratado de R$ 1,5 milhão, o cachê mais caro do biênio entre todos os analisados pela nossa reportagem. O contrato foi fechado em outubro e a apresentação será em setembro de 2026, na Festa do Vaqueiro.

Águas dançantes

Dois municípios fluminenses despontam entre os mais perdulários quando o assunto são shows populares. Não por terem contratado celebridades do mundo da música, mas por terem enfeitado, ao custo de dezenas de milhões, praças, ruas e lagoas com luzes e equipamentos de “águas dançantes”, que antigamente eram chamadas de fontes luminosas.

Maricá, porta de entrada da Região dos Lagos, está gastando R$ 9,8 milhões com luzes dançantes, uma tradição na cidade. Mas Macaé, porta de saída da Região dos Lagos, é imbatível nesse tipo de contratação. Este ano, as águas dançantes que encantam os moradores da cidade custaram R$ 11,36 milhões.

Detalhe: as duas cidades foram atendidas pela mesma empresa, a Interfogos Comércio, Importação e Exportação Ltda. Além de prover equipamentos para os shows aquáticos, a mesma empresa também faturou alto com shows pirotécnicos que animarão o Réveillon dos munícipes.

Os fogos do Réveillon foram contratados por R$ 2,6 milhões pela Prefeitura de Macaé. No ano passado, Arraial do Cabo, outro município da Região dos Lagos, torrou mais R$ 1,92 milhão com a mesma empresa no show pirotécnico da passagem de ano.

Custo per capita

Ainda que custasse o mesmo valor para diferentes municípios, os shows contratados por prefeituras pesam muito mais no bolso das cidades que têm população menor. Em Pedro Alexandre, BA, o show de Wesley Safadão custará R$ 107 por habitante, em Maracanaú, CE, sairá por R$ 3,54 por habitante. Dois fatores explicam essa diferença: a população (Maracanaú tem 234 mil habitantes; Pedro Alexandre, apenas 14.000), e o cachê (em Pedro Alexandre, R$ 1,5 mi; em Maracanaú, “apenas” R$ 900 mil).

Enquanto a população se distrai com o panis et circenses proporcionado pelas prefeituras, quem se esbalda mesmo são os contratantes. Salvo raras e honrosas exceções, quase todas as contratações são feitas com dispensa ou inexigibilidade de licitação por notória especialização.

Não é difícil, portanto, entender a motivação e o vigor do desse autêntico show do bilhão mantido por prefeituras: além de angariar capital simbólico (popularidade) e eleitoral (votos), os prefeitos menos ortodoxos também encontram nas brechas da legislação para se locupletar contratando bandas e grupos musicais populares.

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